
Imagine o alvorecer em Palmas-TO, uma manhã quente de março de 2026. O sol nasce sobre a capital, mas as ruas das quadras residenciais estão diferentes: silenciosas, sem o habitual vaivém dos uniformes laranja e verde dos ACS e ACE.
Às 7h, em vez de baterem nas portas com orientações, vacinas e notificações, centenas de agentes se reúnem em pontos estratégicos: em frente à Prefeitura, na Praça dos Girassóis, nas entradas das UBSs e nos bairros mais populosos como Taquaralto, Santa Bárbara e Jardim Aureny.
Vestidos com as camisetas do SINDACEN-TO — estampadas com frases como “Piso É Direito, Não Favor” e “Greve Pela Dignidade” —, eles formam correntes humanas pacíficas, segurando cartazes escritos à mão:
“TJ Já Decidiu: Piso na Base Agora!”
“R$ 1.923 + Complemento = Precarização”
“30 Anos de Porta em Porta Merecem Respeito”
“Sem Piso Integral, Sem Prevenção”.
O Formigão, mascote do sindicato, gigante inflável ou em fantasia, marcha à frente com um megafone, animando: “Quem sustenta a saúde de Palmas? Nós! Quem merece o piso como base? Nós!” A categoria responde em coro: “Nós! Nós!”
Não há bloqueios de vias principais — a greve é organizada para minimizar impacto imediato na emergência —, mas as visitas domiciliares param: sem agentes, as equipes de dengue, hanseníase e tuberculose ficam paralisadas. UBSs operam com esqueleto mínimo (apenas plantão para urgências graves). A população começa a sentir: mães ligam preocupadas, idosos perguntam pelos remédios controlados, líderes comunitários se mobilizam.
No centro da mobilização, uma tenda improvisada vira QG: faixas estendidas, cooler com água, som tocando músicas de luta (como “A Voz do Povo” ou hinos sindicais adaptados). Agentes se revezam em falas emocionadas no megafone: histórias de 35 anos de serviço, de cachorro que mordeu, de assédio sofrido, de tirar do bolso para comprar material. Lágrimas e aplausos se misturam.
Às 10h, uma comissão eleita — sem intermediários — marcha até o gabinete do prefeito. Eles batem à porta (ou enviam ofício protocolado): “Queremos ser recebidos pessoalmente. Sem assessores. Para ouvir da boca do prefeito: quando cumpre a lei e incorpora o piso como vencimento-base?”
Enquanto isso, redes sociais explodem: lives no Instagram e WhatsApp mostram o Formigão dançando, agentes cantando, depoimentos curtos: “Eu topo! EU TOPO!” A hashtag #GrevePelaDignidade viraliza localmente. A imprensa chega: repórteres de Cenário Tocantins, Jornal do Tocantins, G1 TO filmam a cena pacífica mas firme.
A greve não é barulho vazio — é pressão calculada: serviços essenciais mantidos em mínimo (como manda a lei), mas a prevenção diária, que evita surtos, paralisada. A cidade sente o vazio da ausência daqueles que andam de porta em porta. A pressão sobe: vereadores recebem ligações, secretários de saúde são cobrados, a população divide-se entre apoio (“Eles merecem!”) e questionamento (“E a dengue?”).
No terceiro ou quarto dia, o prefeito marca audiência. Os agentes entram na sala, sentam à mesa, olham nos olhos dele e dizem: “Senhor Prefeito, o TJ já falou. A União repassa integral. Cumpra a lei. Hoje.”
É assim que começa: não com violência, mas com dignidade coletiva. Uma categoria que sempre esteve invisível, agora visível, unida, decidida. Porque o direito não espera trânsito em julgado — ele exige ação.
E quando a greve termina com vitória, Palmas acorda sabendo: os agentes não são despesa. São a espinha dorsal da saúde que protege a todos.
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